Quinta-feira, Março 24, 2005




Depoimento de Patricia Daltro ao Jornal do Blogueiro
sobre o texto "Querido Diário", disponível aqui no post anterior:

Edição de Terça-feira, Novembro 18, 2003


O Dia em que virei Spam!
Por Patricia Daltro. *

"Abro o e-mail de manhã. Como aumentar seu pênis, ganhe dinheiro fácil, faça um curso de sexo tântrico on line, lixo, lixo, lixo, epa! Diário de uma Gorda, parece ser interessante, paro para ler. Heim? Mas esse texto está me soando familiar. Claro! Fui eu que escrevi!!! E foi assim que descobri que havia virado Spam.

Ueba que meus 15 minutinhos de fama finalmente aconteceram. TV Globo me aguarde, mas... meu nome não estava lá. Nem o endereço do blog. Meu texto estava assinado por um tal de Autor Desconhecido, sujeito muito importante na internet, afinal todo dia recebo um texto dele.

Respondo a lista, informando que eu sou a autora do tal texto. Embora pareça uma pobre crônica abandonada ela tem pai e mãe, que a amam muito, oras! Volto aos meus afazeres. Assunto encerrado.

Não demora muito, recebo outra enxurrada de lixo eletrônico, no meio daquilo vejo o e-mail de uma amiga, que também está informando em outra lista que o texto é da minha autoria. De repente, começo a ficar preocupada. Coloco um recado no blog, para que as pessoas que lá passam, saibam que se receber o texto com um frango dançando can-can, avisem a lista que ele não é cachorro sem-dono.

A Bia me informa que também recebeu um e-mail com o tal texto. Onze horas da manha, e três listas diversas contendo minha crônica, passeiam impunemente pela rede. Todas elas sem dizer nome e origem! Consulto o Google, e para minha surpresa, aparecem mais de 400 referências ao dito cujo! E em apenas uma delas, a que se refere ao meu blog, indica que fui eu que escrevi.

Sou masoquista, confesso, e sou o próprio gato morto por curiosidade do ditado. Então começo a entrar em alguns desses blogs. Uns continuam com o tal Autor Desconhecido, (gostaria de conhecer esse cara, ele escreve muito!), outros dizem ser os autores. Tem uma meia-dúzia que afirma ser da Heloisa Perrisé! Tá bom, tá bom, fiquei meio envaidecida com essa comparação. Afinal, ela é uma global!

Lá pelas tantas, já estou me divertindo. Vejo a crônica de diversas maneiras, alguns mudaram o título, a mais engraçada é o Diário de uma Executiva, eita que meu bolso agradeceria muito se isso fosse verdade! Mas, ninguém tirou o frango dançarino de can-can, isso para mim, foi importante, afinal ele é um grande amigo meu!

Gostaria de que esse texto fosse mais um dos meus contos, uma alegre brincadeira sobre um dos muitos fantasmas da internet. Mas, não é. O texto Querido Diário, postado aqui no dia 9 de outubro virou Spam. E pior, foi colocado em vários blogs como de outros autores. Isso é sério. É ilegal. Todos os textos lá escritos são registrados na Biblioteca Nacional. Utilizá-los sem a devida autorização, implica em multas e penalidades outras.

Essa é a parte legal, no sentido jurídico da palavra. Mas, existe a parte do respeito. Tanto eu quanto a Criatura, nunca proibimos ninguém de pegar um dos textos ou desenhos aqui postados, só pedimos que cite a origem e a autoria. Essa sempre foi a nossa política, e quem vem sempre aqui, sabe disso. E respeita. Por isso eu realmente fiquei chateada com esse fato.

Faço malabarismos com o tempo, para escrever um texto novo aqui, todo dia. Trabalho oito horas diárias, estamos endividados até o último fio do cabelo, a vida anda uma M*, mas eu reservo sempre um tempinho, em que afasto tudo ao redor, para escrever. Não só por mim, mas para todos os que vem aqui. Às vezes, acordo de madrugada e fico ali, em frente ao computador, matutando causos para contar. Experimentando palavras, saboreando frases, tudo para chegar a um prato que possa agradar ao paladar de quem por aqui passa.

E agora, esse travo amargo na boca. Desculpem-me todos os amigos e visitantes "da casa", mas hoje a comida azedou. "


*Patricia Daltro é escritora e mantém o blog A Criatura e a Moça com o marido, o ilustrador Marcelo Daltro.






O texto a seguir foi postado no dia 09 de Outubro de 2003 pela escritora Patrícia Daltro em seu blog, A Criatura e a Moça.

Querido Diário
Patrícia Daltro

Hoje começo a fazer dieta. Preciso perder 8 kg. O médico aconselhou a fazer um diário, onde devo colocar minha alimentação e falar sobre o meu estado de espírito. Sinto-me de volta a adolescência, mas estou muito empolgada com tudo. Por mais que dieta seja dolorosa, quando conseguir entrar naquele vestidinho preto maravilhoso, vai ser tudo de bom.

Primeiro dia de dieta. Um queijo branco. Um copo de diet shake. Meu humor está maravilhoso. Me sinto mais leve. Uma leve dor de cabeça talvez.

Segundo dia de dieta. Uma saladinha básica. Algumas torradas e um copo de iogurte. Ainda me sinto maravilhosa. A cabeça doi um pouquinho mais forte, mas nada que uma aspirina não resolva.

Terceiro dia de dieta. Acordei no meio da madrugada com um barulho esquisito. Achei que fosse ladrão. Mas, depois de um tempo percebi que era o meu próprio estômago. Roncando de dar medo. Tomei um litro de chá. Fiquei mijando o resto da noite.
Anotação: Nunca mais tomo chá de camomila.

Quarto dia de dieta. Estou começando a odiar salada. Me sinto uma vaca mascando capim. Estou meio irritada. Mas acho que é o tempo. Minha cabeça parece um tambor. J. comeu uma torta alemã hoje no almoço. Mas eu resisti.
Anotação: Odeio J.

Quinta dia de dieta. Juro por Deus que se ver mais um pedaço de queijo branco na minha frente, eu vomito! No almoço, a salada parecia rir da minha cara. Gritei com o boy hoje! E com a J. Preciso me acalmar e voltar a me concentrar. Comprei uma revista com a Gisele na capa. Minha meta. Não posso perder o foco.

Sexto dia de dieta. Estou um caco. Não dormi nada essa noite. E o pouco que consegui sonhei com um pudim de leite. Acho que mataria hoje por um pedaço de brigadeiro...

Sétimo dia de dieta. Fui ao médico. Emagreci 250 gramas. Tá de sacanagem! A semana toda comendo mato. Só faltando mugir e perdi 250 gramas! Ele explicou que isso é normal. Mulher demora mais emagrecer, ainda mais na minha idade. O FDP me chamou de gorda e velha!
Anotação: Procurar outro médico.

Oitavo dia de dieta. Fui acordada hoje por um frango assado. Juro! Ele estava na beirada da cama, dançando can-can.
Anotação: O pessoal do escritório ficou me olhando esquisito hoje, J. diz que é porque estou parecendo o Jack do Iluminado.

Nono dia de dieta. Não fui trabalhar hoje. O frango assado voltou a me acordar, dançando dança-do-ventre dessa vez. Passei o dia no sofá vendo tv. Acho que existe um complô. Todos os canais passavam receita culinária. Ensinaram a fazer Torta de morangos, salpicão e sanduiche de rocambole.
Anotação: Comprar outro controle remoto, num acesso de fúria, joguei o meu pela janela.

Décimo dia de dieta. Eu odeio Gisele B.

Décimo primeiro dia de dieta. Chutei o cachorro da vizinha. Gritei com o porteiro. O boy não entra mais na minha sala e as secretárias encostam na parede quando eu passo.

Décimo segundo dia de dieta. Sopa.
Anotação:Nunca mais jogo poquer com o frango assado. Ele rouba.

Décimo terceiro dia de dieta. A balança não se moveu. Ela não se moveu! Não perdi um mísero grama! Comecei a gargalhar. Assustado o médico sugeriu um psicologo. Acho que chegou a falar em psiquiatra. Será porque eu o ameacei com um bisturi?
Anotação: Não volto mais ao médico, o frango acha que ele é um charlatão.

Décimo quarto dia de dieta. O frango me apresentou uns amigos. A picanha é super gente boa, e a torta, embora meio enfezada, é um doce.

Décimo quinto dia de dieta. Matei a Gisele B! Cortei ela em pedacinhos e todas as fotos de modelos magérrimas que tinha em casa.
Anotação: O frango e seus amigos estão chateados comigo. Comi um pedaço do Sr. Pão. Mas foi em legítima defesa. Ele me ameaçou com um pedaço de salame.

Décimo sexto dia. Não estou mais de dieta. Aborrecida com o frango, comi ele junto com o pão. E arrematei com a torta. Ela realmente era um doce.

Por Moça - que apesar de estar acima do peso, se recusa a fazer dieta.


O texto é legal, não é? Muito. Patrícia Daltro é uma escritora de talento e gasta seu tempo precioso bolando textos como esses e disponibilizando-os na internet. Se você gostou do texto e quiser repassá-lo ou colar em seu blog, não deixe de mostrar seu respeito pelo trabalho dessa profissional mantendo o nome dela no texto.





O Autor Desconhecido



Da primeira vez chegamos à noite, olhamos a estátua, a máquina de escrever, a agenda, os jornais e a caneta bic empoeirados sobre o banco, o olhar perdido no horizonte, observando a bela paisagem da orla do Leblon.

- Quem será esse? - Perguntei para o Davison, já procurando uma placa que identificasse a estátua. Absortos em nossa ignorância, não encontramos o nome do cara em lugar algum. Chegamos então à conclusão de que se tratava de uma homenagem ao Autor Desconhecido.

Sim, aquele mesmo que escreve os textos mais legais da internet, que a gente recebe por e-mail, lê em sites, em blogs e até em muito jornal por aí. O Autor Desconhecido é o profissional mais altruísta que existe, ele não quer divulgar seu nome nas coisas que escreve, seu intuito é apenas produzir para jogar ao vento, para espalhar a arte, para que o resultado de seu árduo trabalho seja de domínio público, como uma mente completamente desapegada, como a mãe que joga seus lindos filhos no mundo para que todos possam ter a oportunidade de carregá-los no colo. Ela vira as costas, não deixa nome, telefone, nem endereço, não deixa rastro. Definitivamente, um cara desses merece uma homenagem.

Dia desses resolvi voltar lá, para tirar foto da estátua do Autor Desconhecido. Uma garoa fina me acompanhou até que eu alcançasse o final do calçadão do Leblon, onde repousa a justa homenagem. Um gari, sentado ao lado da escultura atrapalhava a minha foto. Resolvi sentar ali perto enquanto aguardava que o homem retomasse seu trabalho. Em vão. Levantei e olhei para os pertences do Autor Desconhecido, sua caneta, agenda, jornal e máquina de escrever...a garoa retirou a poeira e pude ver que havia, no jornal, algo escrito. Me aproximei e li: "Zózimo". Pensei alto:

- Não acredito que esta é a placa. - O gari ouviu e me explicou, em tom importante:
- Esse é o Zózimo.
- Ele era jornalista - Explicou o pipoqueiro, sentado próximo, ao que o gari completou, apaixonado:
- É, tinha uma coluna no Jornal do Brasil. Na verdade ele é mais do que isso. É o símbolo do carioca que sai do trabalho, olha o mar, observa a paisagem. Sem essa estátua o Leblon não seria o Leblon.

Após uma rápida aula do gari sobre a vida e obra de Zózimo Barroso, tirei minhas fotos, com os dois ao fundo, porque agora faziam parte do contexto, não?

Aprendi com tudo isso o que eu já sabia: não havia homenagem alguma ao Autor Desconhecido simplesmente porque não existe o Autor Desconhecido. O que existe é a preguiça e a falta de atenção que nos faz passar reto pela identidade do autor, a preguiça de retirar a poeira sobre as letras e descobrir quem escreveu aquele texto. O autor desconhecido não existe. É só procurar um pouco e rapidinho a gente descobre quem ele é. É só ter um pouquinho de paciência e humildade para descobrir, nem que seja através de um gari.

O Zózimo de bronze, no entanto, torna-se o espelho de tantos autores desconhecidos que têm seus textos roubados e repassados sem autoria ou até mesmo assinados por outra pessoa. O legal da internet é poder divulgar textos interessantes, espalhar o que nos chama a atenção, mas sempre respeitando o trabalho alheio, colocando os devidos créditos e não repassando texto sem autor. Sempre checar, aliás, a autoria dos textos que recebemos por e-mail, fazendo uma rápida pesquisa no google com uma frase do texto entre aspas.

Enchi tanto o saco dos meus amigos (e da lista de amigos deles) com esse papo de respeito ao trabalho dos outros quando eles me mandavam textos que eu recebia sem autoria ou com autoria equivocada que hoje em dia ninguém mais me manda nada e eu fico sabendo pelos outros do que anda circulando na internet. O problema é que quando esses textos saem da internet para a coluna de alguém em um jornal, por exemplo, ou como texto de estudo em uma sala de aula, a coisa complica. Dá a impressão de que escrever não é trabalho e que um texto brota do nada, assim, no papel, se auto-escrevendo.

Fiquei sabendo dia desses de um texto para o qual estou fazendo operação caça-créditos que foi parar em uma coluna de jornal sem que fosse citado o autor. Não é o único, eu sei, e a pessoa que o publicou certamente o fez achando que ele havia sido escrito pelo tal Autor Desconhecido do início deste post. A partir do momento em que constatamos a inexistência dessa entidade, nos deparamos com um problema grave. Não é frescura querer que seu nome esteja atrelado a seu trabalho porque o escritor não tem outra forma de ter seu trabalho reconhecido e divulgado, ou seu nome vai com o seu texto, ou seu texto vai e seu nome fica.

Então, por Zózimo, tenhamos um pouco de respeito pelos escritores que abrem seu talento aqui na internet e façamos, cada um, a nossa parte. Tenho falado sobre isso aqui há muito tempo, mas agora decidi que algo mais específico deve ser feito. Pensando nisso, acabo de criar este blog, onde reunirei os textos roubados, falarei de seus autores e farei aqui uma espécie de "banco de dados de textos perdidos", para facilitar as buscas de quem recebe texto sem autor. A idéia é transformar, em um futuro próximo, o blog em um site, com mecanismo de busca rápida de textos dentro de seu próprio conteúdo.

Já tenho bastante material, mas vou postando aos poucos. Sim, os textos são fantásticos, por isso mesmo devemos respeitar seus autores. Dizer que um texto não tem autor é mentira, atribuir a autoria a outra pessoa, é roubo. Repassar texto sem autor ou roubado, é conivência.

O Autor Desconhecido não existe, todo texto tem autor, nenhum texto se auto-produz. Escrever é trabalho e os escritores que disponibilizam seus textos na net não se importam se você quiser enviar para algum amigo por e-mail ou postar em seu blog, desde que dê os devidos créditos ao autor. E o que é dar os créditos ao autor? É um troço fácil: é só colocar no nome do autor no início ou no final do texto.

Questão de respeito, Internet é só mais um meio de transportar informações, não é uma outra dimensão em que nossos valores e princípios podem ser jogados no lixo assim. Somos pessoas lidando com pessoas, como em qualquer outro lugar, qualquer outra situação. Respeito. É o que pedimos. Simples assim.

Aqui reunirei os textos órfãos aos seus pais. Há tempos fazemos o que eu chamo de "operação caça-créditos" procurando textos de "autor desconhecido" cujos autores eu conheço :) e avisando, site por site, da autoria. Muitos sites têm colaborado conosco, mas ainda somos formiguinhas muito pequenas nessa tarefa. Com os textos reunidos aqui e o depoimento dos autores, será mais fácil obter a ajuda de vocês para este trabalho. Vamos nos divertir na internet sim, mas sem desrespeitar o trabalho alheio, assim todo mundo fica feliz e cumpre seu papel.